Um homem fora traído pelos seus filhos, pela sua mulher e pelos seus amigos; sócios infiéis tinham-no despojado da sua fortuna, fazendo-o mergulhar na miséria. Invadido de um ódio e de um desprezo profundo pela espécie humana, o homem deixou a sociedade e refugiou-se na solidão de uma caverna. Aí, premindo os olhos com os punhos, e meditando numa vigança proporcionada pelo ressentimento, dizia: "Os perversos! Que farei para os punir das suas injustiças, e os tornar tão desgraçados quanto merecem? Ah, se fosse possível imaginar... meter-lhes na cabeça uma grande quimera a que dessem mais importânia que à sua vida, e sobre a qual não pudessem nunca entender-se.!..." Ei-lo que então irrompe da caverna a gritar: "Deus! Deus!..." Ecos sem conta repetem à sua volta: "Deus! Deus!" Este nome temível transmite-se de um pólo a outro e é, por toda a parte, escutado com assombro. De começo os homens prosternam-se, a seguir levantam-se, interrogam-se, disputam, tornam-se azedos, anatematizam-se, odeiam-se, degolam-se uns aos outros, e cumpre-se o voto fatal do misantropo. Pois tal foi no tempo passado, e será no tempo por vir, a história de um ser tão importante quanto incompreensível.
Publicado em 1746, à época sem autoria atribuída e de pronto proibida pelo parlamento de Paris, esta obra de Diderot toma por base o cristianismo para se debruçar sobre vários aspectos das religiões reveladas. Em Pensamentos Filosóficos, Diderot usa todos os seus recursos estilísticos para fazer do leitor um aliado numa das primeiras obras filosóficas a trazer para o público letrado oitocentista o debate entre deísmo e religiões estabelecidas.
Autor: Denis Diderot
Editora: Grupo Almedina
ISBN: 9789724417578
Sebo de livros clássicos. Um resgate à boa literatura. Educando pais e filhos.